segunda-feira, 22 de setembro de 2014
sexta-feira, 6 de abril de 2012
quinta-feira, 20 de maio de 2010
A primeira gorduchinha
Domicílio, segundo o Código Civil, é o lugar onde a pessoa estabelece a sua residência com ânimo definitivo. A infância é um tempo e um lugar de infinitos domicílios. De calças curtas e sonhos compridos, residimos em casas na árvore, em pés de feijão, em arco-íris com potes de ouro, nos furos da parede do quarto de dormir. No meu caso, minha residência era uma bola – e eu morava nela com ânimo definitivo. Tinha domicílio em um limão, numa garrafinha vazia de Yakult, num par de meias enroladas, numa cabeça de boneca e em inúmeros outros objetos com alguma circularidade. Na minha cabeça residia, com ânimo definitivo, o sonho de ser jogador de futebol. Como sonho e paixão andam lado a lado, a primeira gorduchinha a gente nunca esquece. Com talento magro e pretensão gorda, ofereço ao leitor-residente deste blog o texto abaixo – uma forma de compartilhar o que eu sentia por aquela rechonchuda que até hoje me arrebata da cabeça aos pés:
"Minha primeira bola não era de borracha, não tinha gomos de couro, não podia ser designada de número 3 ou 5 e muito menos possuia uma câmara. Era uma bola que trazia manchetes, leads, entrevistas, colunas sociais, informações de turfe e notas de agências de notícias.
Lembro-me bem de como a construí, levado pelas circunstâncias — principalmente aquela relativa à leveza do meu cofrinho da Delfin. Fui à lavanderia no fundo do quintal, desamarrei os jornais que meu pai havia empacotado para vender ao garrafeiro – um garrafeiro eclético, que rodava pelo bairro de charrete e, depois do grito de "garraferoooooo", informava que comprava também qualquer tipo de papel e papelão -, arranquei várias páginas, separei algumas para fazer balão-galinha (era época de festas juninas) e, com as outras, amassando-as com força sucessivas vezes, formei um bolo redondo. Espalhei durex por toda a circunferência, para que não desmanchasse. Depois envolvi esse bolo com um saquinho plástico e passei durex novamente. Lembro bem que, no exato instante em que concluí a tarefa, fitando aquela gorduchinha, meus olhos ficaram marejados, minha pele se arrepiou, meus ouvidos instantaneamente começaram a ouvir apitos, cornetas, gritos de guerra, de olhos abertos me vi entrando no Morumbi dando um pulinho antes de entrar no campo para pisá-lo com o pé direito, abaixando para tocar a grama com a ponta dos dedos e fazer o sinal da cruz, erguendo os braços e saudando a torcida, levantando o joelho e jogando a perna para a direita, depois com a outra fazendo o mesmo movimento para a esquerda, me aquecendo para começar o clássico.
Era 1970 e eu tinha sete anos. Meus ídolos eram Pedro Rocha e Toninho Guerreiro. Sonhava em ter um Gordini igual ao do meu tio – pintado com o nome de todos os jogadores da seleção que estava prestes a conquistar a Copa do México. Cantarolava pelos cantos "pra frente Brasil, salve a seleção" e achava o presidente da República, o Médici, um velhinho legal.
Naquele tempo eu não imaginava que, enquanto embolotava a minha pelota pensando em bicicletas, chaleiras e lençóis, eu chutava não narizes de cera, mas narizes de pinóquio compostos por receitas de bolo, poesias e colunas sociais, que escondiam palavras e expressões como AI-5, inquérito policial militar, tortura, prisões, exílio, seqüestros e outras mais que, de maneira inaudita, compunham minha bola com algo que só mais tarde, no colegial, eu fui saber e entender o que era.
Naquela época eu também sequer imaginava que, no futuro, não me tornaria um jogador de futebol."
"Minha primeira bola não era de borracha, não tinha gomos de couro, não podia ser designada de número 3 ou 5 e muito menos possuia uma câmara. Era uma bola que trazia manchetes, leads, entrevistas, colunas sociais, informações de turfe e notas de agências de notícias.
Lembro-me bem de como a construí, levado pelas circunstâncias — principalmente aquela relativa à leveza do meu cofrinho da Delfin. Fui à lavanderia no fundo do quintal, desamarrei os jornais que meu pai havia empacotado para vender ao garrafeiro – um garrafeiro eclético, que rodava pelo bairro de charrete e, depois do grito de "garraferoooooo", informava que comprava também qualquer tipo de papel e papelão -, arranquei várias páginas, separei algumas para fazer balão-galinha (era época de festas juninas) e, com as outras, amassando-as com força sucessivas vezes, formei um bolo redondo. Espalhei durex por toda a circunferência, para que não desmanchasse. Depois envolvi esse bolo com um saquinho plástico e passei durex novamente. Lembro bem que, no exato instante em que concluí a tarefa, fitando aquela gorduchinha, meus olhos ficaram marejados, minha pele se arrepiou, meus ouvidos instantaneamente começaram a ouvir apitos, cornetas, gritos de guerra, de olhos abertos me vi entrando no Morumbi dando um pulinho antes de entrar no campo para pisá-lo com o pé direito, abaixando para tocar a grama com a ponta dos dedos e fazer o sinal da cruz, erguendo os braços e saudando a torcida, levantando o joelho e jogando a perna para a direita, depois com a outra fazendo o mesmo movimento para a esquerda, me aquecendo para começar o clássico.
Era 1970 e eu tinha sete anos. Meus ídolos eram Pedro Rocha e Toninho Guerreiro. Sonhava em ter um Gordini igual ao do meu tio – pintado com o nome de todos os jogadores da seleção que estava prestes a conquistar a Copa do México. Cantarolava pelos cantos "pra frente Brasil, salve a seleção" e achava o presidente da República, o Médici, um velhinho legal.
Naquele tempo eu não imaginava que, enquanto embolotava a minha pelota pensando em bicicletas, chaleiras e lençóis, eu chutava não narizes de cera, mas narizes de pinóquio compostos por receitas de bolo, poesias e colunas sociais, que escondiam palavras e expressões como AI-5, inquérito policial militar, tortura, prisões, exílio, seqüestros e outras mais que, de maneira inaudita, compunham minha bola com algo que só mais tarde, no colegial, eu fui saber e entender o que era.
Naquela época eu também sequer imaginava que, no futuro, não me tornaria um jogador de futebol."
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Armadilhas
João queria fazer Engenharia. Está fazendo História.
Maria era louca por Medicina. Cursa Letras.
Hermínio era apaixonado por Biologia. Faz Análise de Sistemas.
Kátia não queria ser outra coisa na vida, senão advogada. É dentista.
Hoje, Kátia cuida muito mal de dentes, Hermínio passa a vida lutando contra os números e Maria, que não sabe nem escrever “eu te amo”, está se divorciando de João, que não tem nada a ver com a História.
Maria era louca por Medicina. Cursa Letras.
Hermínio era apaixonado por Biologia. Faz Análise de Sistemas.
Kátia não queria ser outra coisa na vida, senão advogada. É dentista.
Hoje, Kátia cuida muito mal de dentes, Hermínio passa a vida lutando contra os números e Maria, que não sabe nem escrever “eu te amo”, está se divorciando de João, que não tem nada a ver com a História.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Três dias de janela
Tenho uma paixão crônica: a crônica. Parece cômico, mas me apaixonei perdidamente por volta dos 10 anos, o rosto ainda imberbe e o pijama cheirando mijo seco. Foi nos anos 70. Todos os dias eu acordava cedo, quase fim de madrugada, para vê-la. Ia buscá-la no jardim, o peito queimando de saudade do encontro do dia anterior. Às vezes ela estava deitada na grama, impávida, outras vezes vinha ao meu encontro na boca do pastor alemão que fazia a segurança da casa. Abria a Folha no chão da sala e ia direto para a “Ilustrada”. Ela estava sempre ali, em pé, encostada no canto, esperando-me esguia e cheia de novidades. Ela tinha a poesia, o humor, a graça da literatura e ao mesmo tempo a objetividade e a concisão do jornalismo. Mostrava-me um cotidiano que no dia a dia a gente não vê. Um mundo mais bonito e interessante.
Anos mais tarde, andando pela rua Lopes Chaves, bairro da Barra Funda, São Paulo, de terno, gravata e uma pasta de couro repleta de petições, me vi em frente à casa onde morou Mário de Andrade. Transformada em centro cultural, havia um anúncio que fez meu coração bater descompassado: uma oficina de crônicas com o escritor que me apresentou, quando eu tinha 10 anos de idade, aquela coroa enxuta e cheia de lirismo por quem me apaixonei. Lourenço Diaféria ensinaria os segredos da crônica para quem quisesse. Eu quis. Foram trinta dias de encontros, ou melhor, de reencontros furtivos no meio de algumas tardes. O colunista revelado pela Folha, autor de “Um gato na terra do tamborim” e “O empinador de estrela”, entre outros, não se cansava de advertir: escrever é cortar. E foi utilizando caneta e tesoura que eu escrevi a crônica abaixo com o título acima, que ele selecionou e leu alto para a classe, me deixando envergonhado, rubro, mas eternamente consagrado – eu poderia ter parado por ali:
Justo naquele dia o dentista foi abrir aquela janela na minha boca. Eu teria então que encontrar uma fórmula para paquerar, de boca fechada, aquela morena que passava sempre às quatro e meia da tarde na frente da minha janela. Abri a folha do calendário em busca de inspiração. Aquele dia veio a calhar. “O amor é cego, surdo e mudo”, me reconfortou a mensagem. Abri um sorriso – que fechei rápido quando me lembrei da sua enorme falha -, vesti um par de meias novo, calcei o sapato tinindo de brilhando e, às quatro e vinte, estava debruçado na janela. Tinha dez minutos para decorar o alfabeto para mudos que um dia comprei no ônibus e pensei que nunca ia usar. Deu quatro e vinte e nove e eu achava que tinha conseguido. Meu coração, como um cuco saindo do relógio, anunciou quatro e meia com uma batida de surdão. Ela dobrou a esquina e veio vindo. Comecei a movimentar nervoso as mãos e os dedos, tentando dizer silencioso “você é uma gracinha”. Acho que fiz os sinais errados, porque ela viu aquilo, ficou vermelha e, também sem dizer uma palavra, veio na minha direção, ficou na ponta dos pés e me deu um bruta tapa na cara.
Dia seguinte, abri o calendário e ele dizia: “Tapa de amor não dói”. Concordei, e resolvi tentar de novo. Dessa vez tinha tido tempo de estudar bastante e me sentia apto a gesticular uma frase maior: “desculpe, mas só queria dizer que você é uma gracinha e te convidar para tomar um sorvete de menta com pistache coberto com chantily ou se você preferir com calda de chocolate quente seguido de um cafezinho com canela em pó e depois quem sabe um cinema chupando bala chita ou comendo pipoca”. No meio da frase fiz uma careta e comecei a gritar. A cãibra que me deu nos dedos foi brava e, entre um “ai” e outro, a vi atravessar a rua me olhando com ar de desprezo e ir embora.
Não esperei o dia seguinte. Abri o calendário imediatamente, virei a folha e um sopro de ânimo agitou meus cabelos: “Quem ama o feio bonito lhe parece”. Rasguei o alfabeto para mudos e, no dia seguinte, às quatro e meia, lá estava eu debruçado na janela, chinelo de dedos nos pés, bermuda rasgada, camisa amassada, cabelo despenteado e aquela enorme janela estampando meu sorriso. Ela passou e perguntei-lhe as horas. Ela sorriu e, instantaneamente, seu sorriso arrepiou meus cabelos, parou meu coração e meus olhos não acreditaram: só tinha dois dentes e um estava completamente cariado. Ela respondeu quatro e meia com um sotaque italiano e logo se justificou: “- Sou de Veneza e vim da Itália com minha família, fugindo da Máfia”. Falei obrigado rápido e entrei correndo, deixando a janela escancarada. E a janela ficou aberta assim a noite inteira, semanas e meses. Durante muito tempo, não tive coragem de chegar perto de uma veneziana.
Anos mais tarde, andando pela rua Lopes Chaves, bairro da Barra Funda, São Paulo, de terno, gravata e uma pasta de couro repleta de petições, me vi em frente à casa onde morou Mário de Andrade. Transformada em centro cultural, havia um anúncio que fez meu coração bater descompassado: uma oficina de crônicas com o escritor que me apresentou, quando eu tinha 10 anos de idade, aquela coroa enxuta e cheia de lirismo por quem me apaixonei. Lourenço Diaféria ensinaria os segredos da crônica para quem quisesse. Eu quis. Foram trinta dias de encontros, ou melhor, de reencontros furtivos no meio de algumas tardes. O colunista revelado pela Folha, autor de “Um gato na terra do tamborim” e “O empinador de estrela”, entre outros, não se cansava de advertir: escrever é cortar. E foi utilizando caneta e tesoura que eu escrevi a crônica abaixo com o título acima, que ele selecionou e leu alto para a classe, me deixando envergonhado, rubro, mas eternamente consagrado – eu poderia ter parado por ali:
Justo naquele dia o dentista foi abrir aquela janela na minha boca. Eu teria então que encontrar uma fórmula para paquerar, de boca fechada, aquela morena que passava sempre às quatro e meia da tarde na frente da minha janela. Abri a folha do calendário em busca de inspiração. Aquele dia veio a calhar. “O amor é cego, surdo e mudo”, me reconfortou a mensagem. Abri um sorriso – que fechei rápido quando me lembrei da sua enorme falha -, vesti um par de meias novo, calcei o sapato tinindo de brilhando e, às quatro e vinte, estava debruçado na janela. Tinha dez minutos para decorar o alfabeto para mudos que um dia comprei no ônibus e pensei que nunca ia usar. Deu quatro e vinte e nove e eu achava que tinha conseguido. Meu coração, como um cuco saindo do relógio, anunciou quatro e meia com uma batida de surdão. Ela dobrou a esquina e veio vindo. Comecei a movimentar nervoso as mãos e os dedos, tentando dizer silencioso “você é uma gracinha”. Acho que fiz os sinais errados, porque ela viu aquilo, ficou vermelha e, também sem dizer uma palavra, veio na minha direção, ficou na ponta dos pés e me deu um bruta tapa na cara.
Dia seguinte, abri o calendário e ele dizia: “Tapa de amor não dói”. Concordei, e resolvi tentar de novo. Dessa vez tinha tido tempo de estudar bastante e me sentia apto a gesticular uma frase maior: “desculpe, mas só queria dizer que você é uma gracinha e te convidar para tomar um sorvete de menta com pistache coberto com chantily ou se você preferir com calda de chocolate quente seguido de um cafezinho com canela em pó e depois quem sabe um cinema chupando bala chita ou comendo pipoca”. No meio da frase fiz uma careta e comecei a gritar. A cãibra que me deu nos dedos foi brava e, entre um “ai” e outro, a vi atravessar a rua me olhando com ar de desprezo e ir embora.
Não esperei o dia seguinte. Abri o calendário imediatamente, virei a folha e um sopro de ânimo agitou meus cabelos: “Quem ama o feio bonito lhe parece”. Rasguei o alfabeto para mudos e, no dia seguinte, às quatro e meia, lá estava eu debruçado na janela, chinelo de dedos nos pés, bermuda rasgada, camisa amassada, cabelo despenteado e aquela enorme janela estampando meu sorriso. Ela passou e perguntei-lhe as horas. Ela sorriu e, instantaneamente, seu sorriso arrepiou meus cabelos, parou meu coração e meus olhos não acreditaram: só tinha dois dentes e um estava completamente cariado. Ela respondeu quatro e meia com um sotaque italiano e logo se justificou: “- Sou de Veneza e vim da Itália com minha família, fugindo da Máfia”. Falei obrigado rápido e entrei correndo, deixando a janela escancarada. E a janela ficou aberta assim a noite inteira, semanas e meses. Durante muito tempo, não tive coragem de chegar perto de uma veneziana.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
TCC à PQP (2)
Meu trabalho de conclusão de curso ia de vento em popa. Os títulos de crédito, as letras de câmbio e as duplicatas não gostavam de mim: expulsavam-me da classe sempre que chegavam lado a lado com o mestre engomado. Eu não via naquilo nenhuma violência ou preconceito de classe – saía da classe com prazer, com classe, ficava em pé no corredor, junto à marquise, os olhos muito além da Serra da Cantareira, imaginando futuros. E escrevia sem parar, no afã de afiançar aprovação e a colação de grau:
“meu pensamento reflete no espelho verde do papel de bala que os dois da frente abrem fazendo barulho de gravetos estalando
loira, cabelos encaracolados, reflexos, olhos castanhos, mel, óculos de aros azuis, um dia cabelos pretos, lisos, canelas grossas, tênis brancos desamarrados, pernas levemente abertas, gorda, simpática, trejeitos soltos, petrechos de ninfeta, cabeça, idéias envoltas em arco-íris, meias grossas, psicodélica, única lembrança que dói dentro do caderno limpo e organizado, cada cor opaca uma matéria, um dia da semana, um período, uma parte de um tempo
o povo revoltado sai em marcha da boca da professora, alunos discutem o mundo lá fora usando binóculos ao contrário, uma pergunta atirada sobre as cabeças, ouço longe meu nome
trilho, linhas de cadernos, a fumaça dos cigarros se dilui em círculos e os acompanho, lá de cima assisto à aula na cadeira, assistindo
a continuação e só vejo um pedaço de sua perna, de relance seu pé dormindo sobre o tênis para lá de charmoso
as janelas, os vidros, um outro lado da classe, as mesmas imagens refletindo para dentro caretas, palavrões, uns se masturbam, aquela louca para dar pro barba, o mestre esperando o sinal, o japa pensando em trancar, outro ri não não é possível, isso é brincadeira, descubro todos, só não vejo minha figura, belisco, não sinto nada
vontade de ler cortázar, beijar maga, pulando amarelinha atravessar o pátio recitando com ela pessoa, ela apenas um tênis mal amarrado que pisca e apaga pendurado em minha árvore de natal, da minha boca sai um jingle bells desafinado e todos riem"
“meu pensamento reflete no espelho verde do papel de bala que os dois da frente abrem fazendo barulho de gravetos estalando
loira, cabelos encaracolados, reflexos, olhos castanhos, mel, óculos de aros azuis, um dia cabelos pretos, lisos, canelas grossas, tênis brancos desamarrados, pernas levemente abertas, gorda, simpática, trejeitos soltos, petrechos de ninfeta, cabeça, idéias envoltas em arco-íris, meias grossas, psicodélica, única lembrança que dói dentro do caderno limpo e organizado, cada cor opaca uma matéria, um dia da semana, um período, uma parte de um tempo
o povo revoltado sai em marcha da boca da professora, alunos discutem o mundo lá fora usando binóculos ao contrário, uma pergunta atirada sobre as cabeças, ouço longe meu nome
trilho, linhas de cadernos, a fumaça dos cigarros se dilui em círculos e os acompanho, lá de cima assisto à aula na cadeira, assistindo
a continuação e só vejo um pedaço de sua perna, de relance seu pé dormindo sobre o tênis para lá de charmoso
as janelas, os vidros, um outro lado da classe, as mesmas imagens refletindo para dentro caretas, palavrões, uns se masturbam, aquela louca para dar pro barba, o mestre esperando o sinal, o japa pensando em trancar, outro ri não não é possível, isso é brincadeira, descubro todos, só não vejo minha figura, belisco, não sinto nada
vontade de ler cortázar, beijar maga, pulando amarelinha atravessar o pátio recitando com ela pessoa, ela apenas um tênis mal amarrado que pisca e apaga pendurado em minha árvore de natal, da minha boca sai um jingle bells desafinado e todos riem"
sábado, 1 de maio de 2010
O burro Arnaldo
O burro Arnaldo
é um sarro
tem mania de grandeza
usa rabo de cavalo
O burro Arnaldo é assim
no batuque faz tum tum
no bar faz tim tim
Canta pra oxalá, ogum e Iansã
canta tão alto
parece tantã
Gosta de ema, anta e capivara
quando está sem namorar
fica uma arara
O jegue é genioso
fica emburrado à toa
vira e mexe está nervoso
No futebol é cabeça-de-bagre
e torce pra Portuguesa
mas quando o jogo acaba em pizza
só calabreza
é um sarro
tem mania de grandeza
usa rabo de cavalo
O burro Arnaldo é assim
no batuque faz tum tum
no bar faz tim tim
Canta pra oxalá, ogum e Iansã
canta tão alto
parece tantã
Gosta de ema, anta e capivara
quando está sem namorar
fica uma arara
O jegue é genioso
fica emburrado à toa
vira e mexe está nervoso
No futebol é cabeça-de-bagre
e torce pra Portuguesa
mas quando o jogo acaba em pizza
só calabreza
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