quarta-feira, 28 de abril de 2010

Apertem os cintos, o juiz sumiu

Aquele juiz era um patinho feio. Pisava no carpete vermelho do palácio da justiça com um docksider azul – sola sempre suja de barro - e meias soquetes brancas. A calça jeans surrada contrastava com o blazer xadrez, milimétricos quadradinhos amarelos e marrons. Pendurada no pescoço, uma démodé gravata de crochê bordô – a de todos os dias. As golas do colarinho puído da camisa branca tinham as pontas um pouco levantadas para cima. Descia do ônibus, comia um churrasquinho no ponto, comprava o diário popular na banca e entrava no fórum. No seu gabinete, atrás da mesa, colado na parede, à meia altura, um pôster do Corinthians campeão em 77, depois daquele longo jejum. Com sua inseparável bic azul, o paletó pendurado na arara, sentenciava sem parar, tomando um copo de tubaína atrás do outro. Sua vara sempre estava absolutamente em dia, os processos zerados. Não freqüentava festas da associação, nem a colônia de férias na praia. Jamais tinha ido a Brasília conversar com deputados e senadores, em busca de distinções para trabalhadores diferenciados.
Suas decisões, sempre reformadas pelo tribunal, alinhavam uma doutrina pouco compreendida pelos magistrados da instância superior - senhores distintos, relógios de ouro reluzentes no pulso e motoristas à espera na garagem -, que traziam de Londres, ou de Paris, ou de Roma, clássicos do direito com que estudavam as questões controvertidas que surgiam nas ruas, becos e vielas de bairros populares e periféricos de algumas metrópoles brasileiras.
No processo administrativo em que se decidiu pela sua remoção compulsória, a corregedoria alinhou, em negrito, para fundamentar a pena, algumas citações de doutrina reproduzidas nas sentenças daquele juiz, que achei interessante mostrar ao leitor. Numa sentença criminal, encontraram este trecho, na fundamentação: “O calor foi mais uma vez roubado do corpo – ele foi morto -, estava quase sem esperanças de ter um bom futuro, pois queria ter algo, mas estava sem dinheiro, numa área miserável onde todos cantam a mesma canção, que é a única coisa que alguém já fez exclusivamente para alguém daqui; certamente é algo sobre a dor, a esperança, a frustração, ou algo tão específico que só poderia ser feito para os habitantes de um lugar por Deus abandonado e pelo diabo batizado de Capão Pecado” (FERRÉZ, “Capão Pecado”). O trecho a seguir foi extraído de uma sentença de reintegração de posse: “Os novos moradores levaram lixo, latas, cães vira-latas, exus e pombagiras em guias intocáveis, dias para se ir à luta, soco antigo para ser descontado, restos de raiva de tiros, noites para velar cadáveres, resquícios de enchentes, biroscas, feiras de quartas-feiras e as de domingos, vermes velhos em barrigas infantis, revólveres, orixás enroscados em pescoços, frango de despacho, samba de enredo e sincopado, jogo do bicho, fome, traição, mortes, Jesus cristos em cordões arrebentados, forró quente para ser dançado, lamparina de azeite para iluminar o santo, fogareiros, pobreza para querer enriquecer, olhos para nunca ver, nunca dizer, nunca, olhos e peito para encarar a vida, despistar a morte, rejuvenescer a raiva, ensangüentar destinos, fazer a guerra e para ser tatuado.” (PAULO LINS, “Cidade de Deus”). A sentença que homologou a partilha de bens de um famoso empresário local foi assim fundamentada pelo magistrado: “Lenha quando estala na fogueira em noite de Santo Antonio faz até um carinho na barriga de gente igual a mim que vive em São Paulo e às vezes despenca para um sítio pertinho e desconhecido, estende aquela enorme mesa cheia de comidas, abre a adega mais farta e fica conversando sempre um mesmo assunto que não enrola nem desenrola. Que ar leve, hein, acabo intoxicado de oxigênio desse jeito, um dia largo tudo, vendo o carro e vou plantar abóbora na terra que meu avô tem lá em Mato Grosso, esse governo, esse governo não se sustenta mais um ano, fazer o que, meu irmão, quem diria, mas quem diria. Como uma espécie de senha sem combinação, reconhecemo-nos nas frases comuns, mas para mim elas já estouraram a paciência, acho que para os outros também, e eu não sei de que jeito é que a gente ainda se mantém junto. Fora isso, porra, mais nada nos prende, recordar o passado não dá, um quer contar que foi mais importante que o Zé Dirceu que o outro, e chateia ainda mais. Então, deixo minha mulher discutindo estratos sociais numa roda, me afasto sem que percebam e dedico uma garrafa do melhor vinho contemplando a fogueira, pensando sem possuir as idéias, arrepiando sempre que a madeira requebra estalando no compasso do fogo, trec, e eu só consigo explicar o que me arrebata imaginando coisas e fatos da infância. E nesse enrola não desenrola vamos bebendo o vinho e comendo a carne e eu fico pensando nessa gente igual a mim que mora em São Paulo e vez em quando despenca para um sítio na noite de Santo Antônio, arrepiando a barriga quando a lenha estala na fogueira, trec.” (ANTONIO GIAQUINTO, “Dragão de Mofo”).
Não pude continuar a copiar trechos daquele processo administrativo. Dois agentes de segurança do tribunal me pegaram na sala do corregedor com a mão na massa, bisbilhotando os autos que corriam em segredo de justiça. O que aconteceu comigo, bem, isso é outra história - o importante é que estou aqui, vivo, dedilhando devaneios no meu laptop. Daqueles momentos de clandestinidade e tensão vasculhando os escaninhos oficiais, trago comigo apenas a frustração e a dor no peito de não ter conseguido saber o que mais me importava, naquele momento: para onde tinha sido removido aquele juiz. Queria entrevistá-lo de qualquer jeito para este blog. Dar um furo de reportagem. Chegar antes da Caros Amigos ou da Carta Capital.
De lá para cá, quase todas as noites, tenho tido um sonho recorrente: um fórum colorido, um gabinete sem portas, inúmeras janelas e uma ampla vista para o nascente e o pôr do sol; um paletó xadrez na arara, uma garrafa de tubaína em cima da mesa, o pôster do Corinthians na parede, todos os processos em dia e o juiz sorrindo, na sua cadeira, orgulhoso do seu novo posto: diretor do fórum da comarca de Macondo.

domingo, 25 de abril de 2010

Serenatas

Vi você de costas
violão

ouvi sua voz
violino

e violei sua vida
voltando toda noite

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TCC à PQP

Na faculdade de direito, minha aula preferida era direito civil. Onde já se viu, no meio de regimes de bens, nomes patronímicos, contratos de compra e venda com cláusula resolutiva, tomei, já no primeiro ano, uma resolução: começar a escrever, deste então, a minha monografia, trabalho de conclusão de curso. E assim, aula após aula, ela foi tomando corpo:

“Sapatos pretos, brancos, cinzas, roxos escorregam no assoalho liso da pista. A luz estroboscópica dá um tom uniforme ao movimento diferente dos corpos. Eles se quebram, robotizando o panorama. Cabeças se mexem rápidas, braços encenam batidas de bateria e palmas tentam acompanhar os toques secos que saem das caixas acústicas enquanto a cabeça é balançada com velocidade de um lado para outro.
Luzes verdes, vermelhas, azuis, amarelas se mesclam ao colorido das roupas. Olhos fechados demonstram que se está longe, algumas pálpebras cerradas apenas escondem a vontade de demonstrar que se está distante, porém o abrir de vez em quando para ver se há alguém olhando entrega a farsa.
Esboço um leve balanço e balanço a timidez que me leva a parar, fecho os olhos e vejo luzes brilhando, o estroboscópio girando, as caixas gritando e eu dançando freneticamente, travolteando passos que deslumbram garotas que invadem a pista e dançam comigo, outras soltam gritos histéricos, enviam beijos, piscam sensualmente olhos e o garçom me cutuca dizendo se quero mais uma cerveja. Peço duas, três, muitas antes de o sinal bater e o escuro dominar o ambiente vazio.
Depois de quinze copos dessa cerveja que está sempre de colarinho, as garrafas em cima da mesa são pinos de boliche que caçoam de mim. Permanecem em pé, firmes, enquanto bamboleio como se fingisse acompanhar a melodia que agora une os corpos e os rostos ficam colados. Estou sem colarinho, sinto-me um pouco submisso a essa loira gelada que dá ordens acomodada na mesa. Olho para a parede verde e É PROIBIDO FUMAR o mestre salta diante dos meus olhos arregalados, chuta as garrafas e equilibra-se sobre a mesa com os braços abertos e uma gravata de crochê sendo segurada pela mão direita, como um microfone. Verdades saem de sua boca com sons esquisitos, mesclam-se ao discurso dos instrumentos e aos papos oi boneca, psiu, gostoooosaaaa! vamos dançar? criando uma balbúrdia de mercado de peixe. Sob o seu som todos dançam, leis e mais leis fazem seus faróis brilhantes iluminarem cantos vazios do salão onde teias acomodam aranhas sonolentas que usam pedaços de algodão nos ouvidos e têm remelas nos olhos. O mestre faz comício atrás dos óculos modelo antigo, dois círculos grandes, grossos, marrons com lentes espessas embaçadas. Relanceio meus castanhos visionários rumo à parede azul, na porta noto em letras diminutas uma nota: É VEDADA A ENTRADA DE MENORES DE DEZOITO. “Quem é de menor nem pensar, e pela hermenêutica tenho carta branca para barrar também os anões de dezessete centímetros”. Outra vez a voz do mestre, atravessa as cortinas de fumaça dos cigarros e sai das caixas acústicas de vários watts, a língua de crochê sorri e levanta o Oscar de melhor coadjuvante. Engulo mais mililitros, o gole dobra mais um pouco meus joelhos. Já não sei se danço tango ou rock, não sei mais se a garota de branco está só de tanga ou só de coque. Sei apenas que sento na cadeira e o doutor PLUFT! na minha frente, cruza as pernas como manda o figurino e faz chamada oral, questiona o que será da sociedade de amanhã se o despertador não tocar às seis e meia e eu não levantar, tirar e dobrar o pijama e colocá-lo debaixo do travesseiro e me preparar para sair de terno e colete, aí eu falo com alguns fonemas que encontro sóbrios que não estou preocupado com amanhã, pois amanhã é sábado e de terno e colete vou sair na avenida, eu de mestre sala e a loirinha lindinha de óculos de porta bandeira, aí sim vou tirar nota dez e mostrar para o meu pai a caderneta.
A menina insiste em ficar parada no balcão do snack bar, esboça um balanço tímido de acabar e lança um piscar que trota ao meu encontro.
POR FAVOR, EM ATENÇÃO AOS COLEGAS E AOS PROFESSORES QUE ESTÃO TRABALHANDO EM CLASSE, PEDE-SE SILÊNCIO NESTE CORREDOR.
Os gritos histéricos contam a história, o disc jockey abaixa o volume e os dançarinos completam, vozes finas e grossas em uníssono.
EXTRA! EXTRA!
O CORPO DE BOMBEIROS É CHAMADO, AS AUTORIDADES ESTÃO DESESPERADAS, CADERNOS PEGAM FOGO E ELE SE ALASTRA RÁPIDO, LIVROS E LIVROS ENTOPEM OS BUEIROS, A CHUVA É TORRENCIAL, AS RUAS ESTÃO VIRANDO RIOS, OS BAIRROS JÁ SÃO REPRESAS, A CIDADE DAQUI A POUCO VAI VIRAR OCEANO, OS MESTREM CORREM AFLITOS, VÃO PRA LÁ E PRA CÁ, UM DANDO TROMBADA NO OUTRO, ISSO MESMO TORCIDA BRASILEIRA, O CIRCO PEGA FOGO, O SOM DA VITROLA É CADA VEZ MAIS ALTO, TÍMPANOS ESTOURAM AOS MONTES, PILHAS E PILHAS DE LIVROS EM CHAMAS DEIXAM A ESCADA MAGIRUS PEQUENA, OS MESTRES ARRANCAM OS CABELOS E O DONO DA FÁBRICA DE PERUCAS CATA OS FIOS COM AVIDEZ.
Assisto a tudo da minha cadeira, o dedo polegar e o fura bolo estalando, acompanhando o ritmo. Curto o panorama de olhos cerrados, imagino-me cuspindo e apagando tudo, sendo ovacionado como herói nacional e ganhando medalha de honra ao mérito, tendo que escutar com o corpo hirto, teso, sério a ordem do dia. A desordem no povoado impera, lá fora tudo é vermelho e amarelo e aqui dentro o fogo me pega de jeito.



domingo, 18 de abril de 2010

Haicai a tarde

O menino de óculos, magricela, algumas espinhas na cara, conga azul nos pés, fitava o pôr do sol naquele fim de tarde. O alaranjado daquele crepúsculo refletia os cabelos da menina ruiva que havia lhe oferecido, na hora do recreio, uma maria-mole. Milhares de crepúsculos depois, nunca tão alaranjados como aquele, faria um pequeno poema, assim:

Gato faminto,
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Aquele livrinho verde da saraiva está sempre no meu criado-mudo. Ontem à noite, antes de dormir, abri numa folha qualquer. Estava escrito: homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Coloquei o opúsculo no colo, tirei os óculos e fechei os olhos, um sorriso de nostalgia repousando nos meus lábios. Não, não é possível, essa regra não é verdade, absurdo que tenha sido inserida num livro tão importante: o homem não tem direito nenhum diante de uma gata, de uma beldade, de uma deusa – tem é inúmeras obrigações. Ou então este pequeno poema é enormemente inconstitucional:


aquela mulher brilha muito forte
aí virei astrônomo

domingo, 11 de abril de 2010

A bruxa está solta

Puxa, que bruxa murcha
com narigão e chapéu de luxo

Vixi, que bruxa mixa
de unha comprida sem lixa

Nossa, que bruxa moça
de pele branca de louça

Eta bruxa porrreta
de salto alto e chupeta

Sai bruxa capeta
vesga, fanha e perneta

Vai procurar sua turma
e deixa eu sonhar com os anjos

sábado, 10 de abril de 2010

Isonominha

Poetas e poetisas são iguais perante a lei, sem distinção de rima, métrica, estilo e forma, garantindo-se aos leitores e leitoras, eleitores do que ler nos momentos eleitos, a inviolabilidade do deleite ou da vontade de delete – isso está na Constituição. Por isso, não se avexe, deleite-se ou delete:

Cinzenta estação
folhas cobrem os trilhos
o outono apita

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Este blog é uma blague

Este blog não tem pretensão resistida, mas tem muito interesse de agir. A sua única coloração processual é o processo de criação do seu autor: não no sentido postulatório, mas ficcional. O surrealismo, o non sense, o febeapá bem brasileiro, nada disso se importa com juízes e órgãos acusadores. Nascido antes da blogosfera, em bancos escolares, no meio de potes de guache, massinhas, aquarelas e a garrafinha de suco de uva, continua mesclado com certa sensação de não pertencimento, um pouco da tontura de um estrangeiro andando na praia sob o sol causticante do meio dia à procura de miniaturas poéticas na areia, uma mistura de Camus com Manoel de Barros – sem qualquer nepotismo.
Becas caminham pausadas num salão austero, o Cristo pregado na parede quebra o gelo e desdenha da Constituição, que prega o Estado laico. A atmosfera é cinza, seguranças alinhados de terno preto, fones de ouvido nas orelhas, garantem a higienização de toques dos celulares. Dentro e fora só o ar parado, mas sempre gelado. Os sinos tocam, sombras pretas adentram o enorme plenário vazio e choram diante da ausência do pipocar de luzes do fotógrafo lambe-lambe, que perambulava, em épocas douradas, por todos os cantos do salão – ele não está mais entre nós. Não se sabe se é 1984, 2010 ou um outro planeta, atemporal na infinitude de tudo o que está além daquele globo terrestre postado em cima da mesa do menino, o cabelo escorrido penteado de lado, o sorriso mirando a lente da máquina fotográfica, uma caneta em pé ao lado e, ao fundo, o mapa do Brasil em tamanho gigante.
O mundo visto das tintas e dos papéis, telas finas LED de catorze ou quinze polegadas, pendrives, um mundo pensado sobre carpetes vermelhos, relembrado às vezes em círculos regados a uísque, canapés de camarão e lembranças e risadas da última viagem a Paris. Subo à tribuna suando, as pernas tremulas, o coração a mil; como questão de ordem, levanto a possibilidade de uma viagem a Paraisópolis, as latarias brilhando sob a lua cheia (essa imagem roubei de um haicai de Lyad de Almeida, juiz do trabalho aposentado: a luz da lua/faz das latas dos barracos/finas pratarias). Seguranças voam no meu pescoço, algemas ferem o meu pulso, num átimo estou numa sala 2x2, aguardando admoestação do senhor presidente.