Aquele juiz era um patinho feio. Pisava no carpete vermelho do palácio da justiça com um docksider azul – sola sempre suja de barro - e meias soquetes brancas. A calça jeans surrada contrastava com o blazer xadrez, milimétricos quadradinhos amarelos e marrons. Pendurada no pescoço, uma démodé gravata de crochê bordô – a de todos os dias. As golas do colarinho puído da camisa branca tinham as pontas um pouco levantadas para cima. Descia do ônibus, comia um churrasquinho no ponto, comprava o diário popular na banca e entrava no fórum. No seu gabinete, atrás da mesa, colado na parede, à meia altura, um pôster do Corinthians campeão em 77, depois daquele longo jejum. Com sua inseparável bic azul, o paletó pendurado na arara, sentenciava sem parar, tomando um copo de tubaína atrás do outro. Sua vara sempre estava absolutamente em dia, os processos zerados. Não freqüentava festas da associação, nem a colônia de férias na praia. Jamais tinha ido a Brasília conversar com deputados e senadores, em busca de distinções para trabalhadores diferenciados.
Suas decisões, sempre reformadas pelo tribunal, alinhavam uma doutrina pouco compreendida pelos magistrados da instância superior - senhores distintos, relógios de ouro reluzentes no pulso e motoristas à espera na garagem -, que traziam de Londres, ou de Paris, ou de Roma, clássicos do direito com que estudavam as questões controvertidas que surgiam nas ruas, becos e vielas de bairros populares e periféricos de algumas metrópoles brasileiras.
No processo administrativo em que se decidiu pela sua remoção compulsória, a corregedoria alinhou, em negrito, para fundamentar a pena, algumas citações de doutrina reproduzidas nas sentenças daquele juiz, que achei interessante mostrar ao leitor. Numa sentença criminal, encontraram este trecho, na fundamentação: “O calor foi mais uma vez roubado do corpo – ele foi morto -, estava quase sem esperanças de ter um bom futuro, pois queria ter algo, mas estava sem dinheiro, numa área miserável onde todos cantam a mesma canção, que é a única coisa que alguém já fez exclusivamente para alguém daqui; certamente é algo sobre a dor, a esperança, a frustração, ou algo tão específico que só poderia ser feito para os habitantes de um lugar por Deus abandonado e pelo diabo batizado de Capão Pecado” (FERRÉZ, “Capão Pecado”). O trecho a seguir foi extraído de uma sentença de reintegração de posse: “Os novos moradores levaram lixo, latas, cães vira-latas, exus e pombagiras em guias intocáveis, dias para se ir à luta, soco antigo para ser descontado, restos de raiva de tiros, noites para velar cadáveres, resquícios de enchentes, biroscas, feiras de quartas-feiras e as de domingos, vermes velhos em barrigas infantis, revólveres, orixás enroscados em pescoços, frango de despacho, samba de enredo e sincopado, jogo do bicho, fome, traição, mortes, Jesus cristos em cordões arrebentados, forró quente para ser dançado, lamparina de azeite para iluminar o santo, fogareiros, pobreza para querer enriquecer, olhos para nunca ver, nunca dizer, nunca, olhos e peito para encarar a vida, despistar a morte, rejuvenescer a raiva, ensangüentar destinos, fazer a guerra e para ser tatuado.” (PAULO LINS, “Cidade de Deus”). A sentença que homologou a partilha de bens de um famoso empresário local foi assim fundamentada pelo magistrado: “Lenha quando estala na fogueira em noite de Santo Antonio faz até um carinho na barriga de gente igual a mim que vive em São Paulo e às vezes despenca para um sítio pertinho e desconhecido, estende aquela enorme mesa cheia de comidas, abre a adega mais farta e fica conversando sempre um mesmo assunto que não enrola nem desenrola. Que ar leve, hein, acabo intoxicado de oxigênio desse jeito, um dia largo tudo, vendo o carro e vou plantar abóbora na terra que meu avô tem lá em Mato Grosso, esse governo, esse governo não se sustenta mais um ano, fazer o que, meu irmão, quem diria, mas quem diria. Como uma espécie de senha sem combinação, reconhecemo-nos nas frases comuns, mas para mim elas já estouraram a paciência, acho que para os outros também, e eu não sei de que jeito é que a gente ainda se mantém junto. Fora isso, porra, mais nada nos prende, recordar o passado não dá, um quer contar que foi mais importante que o Zé Dirceu que o outro, e chateia ainda mais. Então, deixo minha mulher discutindo estratos sociais numa roda, me afasto sem que percebam e dedico uma garrafa do melhor vinho contemplando a fogueira, pensando sem possuir as idéias, arrepiando sempre que a madeira requebra estalando no compasso do fogo, trec, e eu só consigo explicar o que me arrebata imaginando coisas e fatos da infância. E nesse enrola não desenrola vamos bebendo o vinho e comendo a carne e eu fico pensando nessa gente igual a mim que mora em São Paulo e vez em quando despenca para um sítio na noite de Santo Antônio, arrepiando a barriga quando a lenha estala na fogueira, trec.” (ANTONIO GIAQUINTO, “Dragão de Mofo”).
Não pude continuar a copiar trechos daquele processo administrativo. Dois agentes de segurança do tribunal me pegaram na sala do corregedor com a mão na massa, bisbilhotando os autos que corriam em segredo de justiça. O que aconteceu comigo, bem, isso é outra história - o importante é que estou aqui, vivo, dedilhando devaneios no meu laptop. Daqueles momentos de clandestinidade e tensão vasculhando os escaninhos oficiais, trago comigo apenas a frustração e a dor no peito de não ter conseguido saber o que mais me importava, naquele momento: para onde tinha sido removido aquele juiz. Queria entrevistá-lo de qualquer jeito para este blog. Dar um furo de reportagem. Chegar antes da Caros Amigos ou da Carta Capital.
De lá para cá, quase todas as noites, tenho tido um sonho recorrente: um fórum colorido, um gabinete sem portas, inúmeras janelas e uma ampla vista para o nascente e o pôr do sol; um paletó xadrez na arara, uma garrafa de tubaína em cima da mesa, o pôster do Corinthians na parede, todos os processos em dia e o juiz sorrindo, na sua cadeira, orgulhoso do seu novo posto: diretor do fórum da comarca de Macondo.
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