Domicílio, segundo o Código Civil, é o lugar onde a pessoa estabelece a sua residência com ânimo definitivo. A infância é um tempo e um lugar de infinitos domicílios. De calças curtas e sonhos compridos, residimos em casas na árvore, em pés de feijão, em arco-íris com potes de ouro, nos furos da parede do quarto de dormir. No meu caso, minha residência era uma bola – e eu morava nela com ânimo definitivo. Tinha domicílio em um limão, numa garrafinha vazia de Yakult, num par de meias enroladas, numa cabeça de boneca e em inúmeros outros objetos com alguma circularidade. Na minha cabeça residia, com ânimo definitivo, o sonho de ser jogador de futebol. Como sonho e paixão andam lado a lado, a primeira gorduchinha a gente nunca esquece. Com talento magro e pretensão gorda, ofereço ao leitor-residente deste blog o texto abaixo – uma forma de compartilhar o que eu sentia por aquela rechonchuda que até hoje me arrebata da cabeça aos pés:
"Minha primeira bola não era de borracha, não tinha gomos de couro, não podia ser designada de número 3 ou 5 e muito menos possuia uma câmara. Era uma bola que trazia manchetes, leads, entrevistas, colunas sociais, informações de turfe e notas de agências de notícias.
Lembro-me bem de como a construí, levado pelas circunstâncias — principalmente aquela relativa à leveza do meu cofrinho da Delfin. Fui à lavanderia no fundo do quintal, desamarrei os jornais que meu pai havia empacotado para vender ao garrafeiro – um garrafeiro eclético, que rodava pelo bairro de charrete e, depois do grito de "garraferoooooo", informava que comprava também qualquer tipo de papel e papelão -, arranquei várias páginas, separei algumas para fazer balão-galinha (era época de festas juninas) e, com as outras, amassando-as com força sucessivas vezes, formei um bolo redondo. Espalhei durex por toda a circunferência, para que não desmanchasse. Depois envolvi esse bolo com um saquinho plástico e passei durex novamente. Lembro bem que, no exato instante em que concluí a tarefa, fitando aquela gorduchinha, meus olhos ficaram marejados, minha pele se arrepiou, meus ouvidos instantaneamente começaram a ouvir apitos, cornetas, gritos de guerra, de olhos abertos me vi entrando no Morumbi dando um pulinho antes de entrar no campo para pisá-lo com o pé direito, abaixando para tocar a grama com a ponta dos dedos e fazer o sinal da cruz, erguendo os braços e saudando a torcida, levantando o joelho e jogando a perna para a direita, depois com a outra fazendo o mesmo movimento para a esquerda, me aquecendo para começar o clássico.
Era 1970 e eu tinha sete anos. Meus ídolos eram Pedro Rocha e Toninho Guerreiro. Sonhava em ter um Gordini igual ao do meu tio – pintado com o nome de todos os jogadores da seleção que estava prestes a conquistar a Copa do México. Cantarolava pelos cantos "pra frente Brasil, salve a seleção" e achava o presidente da República, o Médici, um velhinho legal.
Naquele tempo eu não imaginava que, enquanto embolotava a minha pelota pensando em bicicletas, chaleiras e lençóis, eu chutava não narizes de cera, mas narizes de pinóquio compostos por receitas de bolo, poesias e colunas sociais, que escondiam palavras e expressões como AI-5, inquérito policial militar, tortura, prisões, exílio, seqüestros e outras mais que, de maneira inaudita, compunham minha bola com algo que só mais tarde, no colegial, eu fui saber e entender o que era.
Naquela época eu também sequer imaginava que, no futuro, não me tornaria um jogador de futebol."
quinta-feira, 20 de maio de 2010
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Adorei! Não preciso dizer que vc é ótimo, né?
ResponderExcluirPreciso?!
ok!
VOCÊ É ÓTIMO !!!!!!
bjs
Mariana prima (rs)
Muito bom, como todas as suas crônicas! Parabéns!
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