Meu trabalho de conclusão de curso ia de vento em popa. Os títulos de crédito, as letras de câmbio e as duplicatas não gostavam de mim: expulsavam-me da classe sempre que chegavam lado a lado com o mestre engomado. Eu não via naquilo nenhuma violência ou preconceito de classe – saía da classe com prazer, com classe, ficava em pé no corredor, junto à marquise, os olhos muito além da Serra da Cantareira, imaginando futuros. E escrevia sem parar, no afã de afiançar aprovação e a colação de grau:
“meu pensamento reflete no espelho verde do papel de bala que os dois da frente abrem fazendo barulho de gravetos estalando
loira, cabelos encaracolados, reflexos, olhos castanhos, mel, óculos de aros azuis, um dia cabelos pretos, lisos, canelas grossas, tênis brancos desamarrados, pernas levemente abertas, gorda, simpática, trejeitos soltos, petrechos de ninfeta, cabeça, idéias envoltas em arco-íris, meias grossas, psicodélica, única lembrança que dói dentro do caderno limpo e organizado, cada cor opaca uma matéria, um dia da semana, um período, uma parte de um tempo
o povo revoltado sai em marcha da boca da professora, alunos discutem o mundo lá fora usando binóculos ao contrário, uma pergunta atirada sobre as cabeças, ouço longe meu nome
trilho, linhas de cadernos, a fumaça dos cigarros se dilui em círculos e os acompanho, lá de cima assisto à aula na cadeira, assistindo
a continuação e só vejo um pedaço de sua perna, de relance seu pé dormindo sobre o tênis para lá de charmoso
as janelas, os vidros, um outro lado da classe, as mesmas imagens refletindo para dentro caretas, palavrões, uns se masturbam, aquela louca para dar pro barba, o mestre esperando o sinal, o japa pensando em trancar, outro ri não não é possível, isso é brincadeira, descubro todos, só não vejo minha figura, belisco, não sinto nada
vontade de ler cortázar, beijar maga, pulando amarelinha atravessar o pátio recitando com ela pessoa, ela apenas um tênis mal amarrado que pisca e apaga pendurado em minha árvore de natal, da minha boca sai um jingle bells desafinado e todos riem"
sexta-feira, 7 de maio de 2010
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