Tenho uma paixão crônica: a crônica. Parece cômico, mas me apaixonei perdidamente por volta dos 10 anos, o rosto ainda imberbe e o pijama cheirando mijo seco. Foi nos anos 70. Todos os dias eu acordava cedo, quase fim de madrugada, para vê-la. Ia buscá-la no jardim, o peito queimando de saudade do encontro do dia anterior. Às vezes ela estava deitada na grama, impávida, outras vezes vinha ao meu encontro na boca do pastor alemão que fazia a segurança da casa. Abria a Folha no chão da sala e ia direto para a “Ilustrada”. Ela estava sempre ali, em pé, encostada no canto, esperando-me esguia e cheia de novidades. Ela tinha a poesia, o humor, a graça da literatura e ao mesmo tempo a objetividade e a concisão do jornalismo. Mostrava-me um cotidiano que no dia a dia a gente não vê. Um mundo mais bonito e interessante.
Anos mais tarde, andando pela rua Lopes Chaves, bairro da Barra Funda, São Paulo, de terno, gravata e uma pasta de couro repleta de petições, me vi em frente à casa onde morou Mário de Andrade. Transformada em centro cultural, havia um anúncio que fez meu coração bater descompassado: uma oficina de crônicas com o escritor que me apresentou, quando eu tinha 10 anos de idade, aquela coroa enxuta e cheia de lirismo por quem me apaixonei. Lourenço Diaféria ensinaria os segredos da crônica para quem quisesse. Eu quis. Foram trinta dias de encontros, ou melhor, de reencontros furtivos no meio de algumas tardes. O colunista revelado pela Folha, autor de “Um gato na terra do tamborim” e “O empinador de estrela”, entre outros, não se cansava de advertir: escrever é cortar. E foi utilizando caneta e tesoura que eu escrevi a crônica abaixo com o título acima, que ele selecionou e leu alto para a classe, me deixando envergonhado, rubro, mas eternamente consagrado – eu poderia ter parado por ali:
Justo naquele dia o dentista foi abrir aquela janela na minha boca. Eu teria então que encontrar uma fórmula para paquerar, de boca fechada, aquela morena que passava sempre às quatro e meia da tarde na frente da minha janela. Abri a folha do calendário em busca de inspiração. Aquele dia veio a calhar. “O amor é cego, surdo e mudo”, me reconfortou a mensagem. Abri um sorriso – que fechei rápido quando me lembrei da sua enorme falha -, vesti um par de meias novo, calcei o sapato tinindo de brilhando e, às quatro e vinte, estava debruçado na janela. Tinha dez minutos para decorar o alfabeto para mudos que um dia comprei no ônibus e pensei que nunca ia usar. Deu quatro e vinte e nove e eu achava que tinha conseguido. Meu coração, como um cuco saindo do relógio, anunciou quatro e meia com uma batida de surdão. Ela dobrou a esquina e veio vindo. Comecei a movimentar nervoso as mãos e os dedos, tentando dizer silencioso “você é uma gracinha”. Acho que fiz os sinais errados, porque ela viu aquilo, ficou vermelha e, também sem dizer uma palavra, veio na minha direção, ficou na ponta dos pés e me deu um bruta tapa na cara.
Dia seguinte, abri o calendário e ele dizia: “Tapa de amor não dói”. Concordei, e resolvi tentar de novo. Dessa vez tinha tido tempo de estudar bastante e me sentia apto a gesticular uma frase maior: “desculpe, mas só queria dizer que você é uma gracinha e te convidar para tomar um sorvete de menta com pistache coberto com chantily ou se você preferir com calda de chocolate quente seguido de um cafezinho com canela em pó e depois quem sabe um cinema chupando bala chita ou comendo pipoca”. No meio da frase fiz uma careta e comecei a gritar. A cãibra que me deu nos dedos foi brava e, entre um “ai” e outro, a vi atravessar a rua me olhando com ar de desprezo e ir embora.
Não esperei o dia seguinte. Abri o calendário imediatamente, virei a folha e um sopro de ânimo agitou meus cabelos: “Quem ama o feio bonito lhe parece”. Rasguei o alfabeto para mudos e, no dia seguinte, às quatro e meia, lá estava eu debruçado na janela, chinelo de dedos nos pés, bermuda rasgada, camisa amassada, cabelo despenteado e aquela enorme janela estampando meu sorriso. Ela passou e perguntei-lhe as horas. Ela sorriu e, instantaneamente, seu sorriso arrepiou meus cabelos, parou meu coração e meus olhos não acreditaram: só tinha dois dentes e um estava completamente cariado. Ela respondeu quatro e meia com um sotaque italiano e logo se justificou: “- Sou de Veneza e vim da Itália com minha família, fugindo da Máfia”. Falei obrigado rápido e entrei correndo, deixando a janela escancarada. E a janela ficou aberta assim a noite inteira, semanas e meses. Durante muito tempo, não tive coragem de chegar perto de uma veneziana.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
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