Na faculdade de direito, minha aula preferida era direito civil. Onde já se viu, no meio de regimes de bens, nomes patronímicos, contratos de compra e venda com cláusula resolutiva, tomei, já no primeiro ano, uma resolução: começar a escrever, deste então, a minha monografia, trabalho de conclusão de curso. E assim, aula após aula, ela foi tomando corpo:
“Sapatos pretos, brancos, cinzas, roxos escorregam no assoalho liso da pista. A luz estroboscópica dá um tom uniforme ao movimento diferente dos corpos. Eles se quebram, robotizando o panorama. Cabeças se mexem rápidas, braços encenam batidas de bateria e palmas tentam acompanhar os toques secos que saem das caixas acústicas enquanto a cabeça é balançada com velocidade de um lado para outro.
Luzes verdes, vermelhas, azuis, amarelas se mesclam ao colorido das roupas. Olhos fechados demonstram que se está longe, algumas pálpebras cerradas apenas escondem a vontade de demonstrar que se está distante, porém o abrir de vez em quando para ver se há alguém olhando entrega a farsa.
Esboço um leve balanço e balanço a timidez que me leva a parar, fecho os olhos e vejo luzes brilhando, o estroboscópio girando, as caixas gritando e eu dançando freneticamente, travolteando passos que deslumbram garotas que invadem a pista e dançam comigo, outras soltam gritos histéricos, enviam beijos, piscam sensualmente olhos e o garçom me cutuca dizendo se quero mais uma cerveja. Peço duas, três, muitas antes de o sinal bater e o escuro dominar o ambiente vazio.
Depois de quinze copos dessa cerveja que está sempre de colarinho, as garrafas em cima da mesa são pinos de boliche que caçoam de mim. Permanecem em pé, firmes, enquanto bamboleio como se fingisse acompanhar a melodia que agora une os corpos e os rostos ficam colados. Estou sem colarinho, sinto-me um pouco submisso a essa loira gelada que dá ordens acomodada na mesa. Olho para a parede verde e É PROIBIDO FUMAR o mestre salta diante dos meus olhos arregalados, chuta as garrafas e equilibra-se sobre a mesa com os braços abertos e uma gravata de crochê sendo segurada pela mão direita, como um microfone. Verdades saem de sua boca com sons esquisitos, mesclam-se ao discurso dos instrumentos e aos papos oi boneca, psiu, gostoooosaaaa! vamos dançar? criando uma balbúrdia de mercado de peixe. Sob o seu som todos dançam, leis e mais leis fazem seus faróis brilhantes iluminarem cantos vazios do salão onde teias acomodam aranhas sonolentas que usam pedaços de algodão nos ouvidos e têm remelas nos olhos. O mestre faz comício atrás dos óculos modelo antigo, dois círculos grandes, grossos, marrons com lentes espessas embaçadas. Relanceio meus castanhos visionários rumo à parede azul, na porta noto em letras diminutas uma nota: É VEDADA A ENTRADA DE MENORES DE DEZOITO. “Quem é de menor nem pensar, e pela hermenêutica tenho carta branca para barrar também os anões de dezessete centímetros”. Outra vez a voz do mestre, atravessa as cortinas de fumaça dos cigarros e sai das caixas acústicas de vários watts, a língua de crochê sorri e levanta o Oscar de melhor coadjuvante. Engulo mais mililitros, o gole dobra mais um pouco meus joelhos. Já não sei se danço tango ou rock, não sei mais se a garota de branco está só de tanga ou só de coque. Sei apenas que sento na cadeira e o doutor PLUFT! na minha frente, cruza as pernas como manda o figurino e faz chamada oral, questiona o que será da sociedade de amanhã se o despertador não tocar às seis e meia e eu não levantar, tirar e dobrar o pijama e colocá-lo debaixo do travesseiro e me preparar para sair de terno e colete, aí eu falo com alguns fonemas que encontro sóbrios que não estou preocupado com amanhã, pois amanhã é sábado e de terno e colete vou sair na avenida, eu de mestre sala e a loirinha lindinha de óculos de porta bandeira, aí sim vou tirar nota dez e mostrar para o meu pai a caderneta.
A menina insiste em ficar parada no balcão do snack bar, esboça um balanço tímido de acabar e lança um piscar que trota ao meu encontro.
POR FAVOR, EM ATENÇÃO AOS COLEGAS E AOS PROFESSORES QUE ESTÃO TRABALHANDO EM CLASSE, PEDE-SE SILÊNCIO NESTE CORREDOR.
Os gritos histéricos contam a história, o disc jockey abaixa o volume e os dançarinos completam, vozes finas e grossas em uníssono.
EXTRA! EXTRA!
O CORPO DE BOMBEIROS É CHAMADO, AS AUTORIDADES ESTÃO DESESPERADAS, CADERNOS PEGAM FOGO E ELE SE ALASTRA RÁPIDO, LIVROS E LIVROS ENTOPEM OS BUEIROS, A CHUVA É TORRENCIAL, AS RUAS ESTÃO VIRANDO RIOS, OS BAIRROS JÁ SÃO REPRESAS, A CIDADE DAQUI A POUCO VAI VIRAR OCEANO, OS MESTREM CORREM AFLITOS, VÃO PRA LÁ E PRA CÁ, UM DANDO TROMBADA NO OUTRO, ISSO MESMO TORCIDA BRASILEIRA, O CIRCO PEGA FOGO, O SOM DA VITROLA É CADA VEZ MAIS ALTO, TÍMPANOS ESTOURAM AOS MONTES, PILHAS E PILHAS DE LIVROS EM CHAMAS DEIXAM A ESCADA MAGIRUS PEQUENA, OS MESTRES ARRANCAM OS CABELOS E O DONO DA FÁBRICA DE PERUCAS CATA OS FIOS COM AVIDEZ.
Assisto a tudo da minha cadeira, o dedo polegar e o fura bolo estalando, acompanhando o ritmo. Curto o panorama de olhos cerrados, imagino-me cuspindo e apagando tudo, sendo ovacionado como herói nacional e ganhando medalha de honra ao mérito, tendo que escutar com o corpo hirto, teso, sério a ordem do dia. A desordem no povoado impera, lá fora tudo é vermelho e amarelo e aqui dentro o fogo me pega de jeito.
“
quarta-feira, 21 de abril de 2010
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